Um livro interessantíssimo, e que questiona uma série de dogmas da historiologia brasileira, parece dar indicações sobre este fenômeno. O Arcaísmo Como Projeto, dos professores da UFRJ João Fragoso e Manolo Florentino, apresenta uma série de estudos sobre o final do período colonial que põem em cheque alguns dos mais conhecidos dogmas da história nacional. Por exemplo, a bazófia da inexistência de uma economia local forte por culpa portuguesa, ou mesmo a impossibilidade do pobre ascender numa sociedade tão desigual. Mas não é disso que trato aqui. Mas de um dado mais pertinente para este tópico, que é a concentração da riqueza não no produtor, mas no intermediário. Segundo o livro, 20 famílias locais praticamente controlavam do transporte à logística de distribuição de produtos e escravos, além do crédito na colônia, sendo que seus tentáculos chegavam inclusive à metrópole portuguesa e África.
Não deixa de ser curioso notar que, segundo os historiadores, estas famílias não duravam mais que duas gerações – já que aparentemente, neste momento, elas se livravam das empresas, compravam um bocado de terra no interior e iam viver de rendas. Ou seja, nunca se transformava em capital produtivo, mas servia para legitimar uma certa aristocracia local, que reproduzia a aristocracia portuguesa.
É curioso notar que, de certa forma, pouca coisa mudou nesta mentalidade. O brasileiro, se ganha dinheiro, tende a torrar em bens duráveis e imobilizados. Raramente se ouve de alguém que ganhou dinheiro conversas sobre abrir uma indústria ou uma empresa (que não seja um bar ou restaurante). Nosso empreendedorismo é de necessidade, não de vocação. Empresas consolidadas são vendidas a estrangeiros e seus donos simplesmente compram uma fazenda e vão viver de bois no pasto. Este parece ser um ponto.
O outro ponto é a vaca leiteira do intermediário no Brasil. Me lembro que, nos anos 70, esteve em voga a idéia de que nossa inflação era causada por gargalos estruturais no Brasil, com oligopólios controlando a logística e a distribuição dos produtos. Estes, por sua vez, se apropriavam da maior parte do valor agregado. O que é no mínimo uma distorção, pois é o produto que gera riqueza, não sua intermediação. É por isso que hoje ainda vemos os bancos como um dos segmentos mais importantes do PIB (sua apropriação representa mais de 7%) enquanto a indústria de criação não chega a 1%, a despeito de (teoricamente) gerar muito mais riqueza, valor e emprego.
Recomendo a leitura deste livro para abrir um pouco a cabeça das pessoas que costumam culpar as “Zelites Brancas”, a éguinha pocotó e os portugueses por algo que é de nossa responsabilidade. Nós, a sociedade brasileira como um todo, pois suas elites nada mais fazem do que reproduzir a ordem de um pensamento vigente entre pobres e remediados da classe média.