A Veja dessa semana derrapa feio numa matéria que mostra a fuga dos talentos e da classe média bem formada para os empregos públicos. Ela falha por abordar efeitos colaterais como se fossem os efeitos principais, esquecendo-se de buscar a raiz da fuga.
Segundo a revista, por meio da valorização dos salários das “boas” carreiras de governo (e aí a revista já mistura empresas estatais com empresas públicas, o que distorce o resultado), pela possibilidade de “altos salários” (se alguém achar que 2500 dólares para tomar pipoco na rua é bom salário), pela estabilidade e pelas “perspectivas de crescimento na carreira” (aqui novamente se distorcendo o conceito de empresa pública e estatal, onde a “perspectiva” faz mais sentido).
Assusta que a revista tenha simplesmente se esquecido do brutal desaparecimento dos empregos qualificados, da precarização do trabalho fortalecida nesse que é o pior governo da história em termos estruturais e institucionais (isso sem falar na corrupção e decadência moral, que daria outro livro). Só para dar um exemplo, copio esse trecho do texto de José Paulo Kupfer, do ótimo nomínimo, lembrando que a indústria de transformação é aquela que gera empregos qualificados, bem pagos e que movimenta as principais cadeias produtivas longas (em bom português, geram empregos e renda):
“Segundo dados publicados no “Estado de S. Paulo”, neste domingo, a indústria de transformação cresce abaixo do PIB desde 2004 e, de acordo com dados publicados pela “Folha de S. Paulo”, neste domingo, vem perdendo densidade tecnológica. A indústria de transformação representa hoje somente 18% do PIB e seus setores de ponta encolheram 16%, nos últimos dez anos (hoje 70% da indústria fabrica produtos de baixa ou média-baixa tecnologia).”
Isso é um verdadeiro desastre, prova de erros inacreditáveis de prioridade. O pior é que a reportagem de Veja deveria ter servido de alerta, e não ter falado como prova de que estamos no caminho certo. Se alguém me provar que algum dia algum país evoluiu ao levar toda sua massa crítica de trabalho formado para o governo e não para o setor privado, que use esse espaço para me desacreditar. Exceto por pesquisadores acadêmicos e pessoas com vocação para o trabalho público, o restante deveria estar fora do governo, pesquisando, investindo em novos produtos, novas tecnologias, novos modelos de gestão… Mas não: o Brasil é uma jabuticaba podre, copiando o que há de pior (modelo italiano de corrupção) e inovando no que não é para inovar (a volta da monocultura)...