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Quis recordar um clássico completamente ignorado mas que, já em 1995, trazia guitarras e eletrônica com uma pegada indie rock que somente agora se tornou “na moda”. Falo do Air Miami, projeto surgido das cinzas do predileto da casa Unrest, e que reunia a baixista Bridget Cross e o guitarrista Mark Robinson num projeto bem mais dançante que o trabalho do Unrest. É visível aqui a fascinação de Robinson com o post punk das bandas da Factory britânica e melhor ainda como ele destilava tudo com o indie rock minimalista do Unrest.
Dolphin Expressway é uma das obrigatórias: a faixa mais guitarreira do CD, pegaria bem numa balada no CB ou no Clube Praga, e lembra o Moldy Peaches se destilado na sonoridade do Le Tigre. Sweet Little Heartbreaker é um proto-punk eletrônico minimalista cantado com megafone, em um rush de 2 minutos.
Não é um álbum cerebral e díficil, muito pelo contrário. Chama a atenção por ser grudento, criativo e, ao mesmo tempo, inteligente, sem ser cabeçudo.
O CD não é fácil de achar por aí, mas a loja da TeenBeat tem. Compre já!
PS: Fui ver agora que Mark Robinson lançou as 2 raríssimas demos do Air Miami em CD ano passado! Beleza!
PS: Não deixe de escutar Flin Flon e Unrest, as outras bandas de Mark Robinson.
PS: Um raríssimo vídeo do Air Miami, I Hate Milk. Percebam como as bandas novas clonaram o som deles, sem dar-lhes o just crédito (sim, no mundinho indie o Unrest é amado):
Quando se tem Wedding Present e Steve Albini juntos num mesmo álbum, algo mágico sempre acontece. Na primeira vez, deu no EP 3 Songs, que tem umas das melhores canções da década de 90, Crawl. Depois, ele se juntaram novamente para o monumental Seamonsters, um daqueles dez álbuns para se levar a uma ilha deserta e tal.
Eis que 17 anos depois, com 3 álbuns, um Cinerama, e um retorno e mudança para os Estados Unidos, surge El Rey, o novo trabalho de David Gedge e quem quer que esteja junto (não é só a voz de Gedge que me lembra do Fall), com Steve Albini novamente nos botões e engenharia. Seamonsters Volume 2?
Não exatamente. Gedge não é um músico tradicional: sua banda, apesar de ser originalmente de Leeds, nunca soou exatamente britânica. Nenhum álbum do Wedding Present lembra o anterior: há sempre mudanças sensíveis, seja de tom, tema, peso, velocidade etc. E é fato que, desde que fez o projeto Cinerama, seu som ficou muito menos abrasivo e nervoso.
Este é um dos lados do álbum. Mas Gedge sempre fez letras dúbias e provocativas sobre as relações humanas (como nosso amigo Elvis Costello, e muito antes do Belle & Sebastian). E a inspiração deste álbum é a Califórnia, mas visto por personagens levados ao lado excessivo do sol local. Albini entra exatamente perfeitamente, dando o contraste do tom mais seco, sinistro e direto a um som aparentemente ensolarado. É esta mistura que coloca El Rey já entre os melhores álbuns do Wedding Present.
Não, não é tão bom quanto Seamonsters (falta a finesse com peso de Simon Smith, o melhor baterista de sua geração, por exemplo), mas é mais um daqueles álbuns que estão fora do radar simplesmente por não ser parte da “nova onda” do momento. O que importa é que você, que leu aqui, já sabe. Coloquei duas faixas no meu muxtape para diversão de todos.
Hot Chip – One Pure Thought
Jun 30
E ouçam aqui um dos clássicos do Emmit Rhodes e vejam como a voz é muito parecida:
Elvis Costello tinha prometido não gravar mais CDs por conta da falência do modelo atual na indústria. Óbvio que ele em menos de seis meses descumpriu a patacoada e gravou, em dois lances de sessões, o ótimo Momofuku, cujo título é atribuído ao criador do lámen. Para não dizer que ele mentiu completamente sobre não lançar mais CDs, ele lançou primeiro em vinil (e sim, o geek que vos escreve comprou).E qual a analogia com o miojo? Bem, ambos são rápidos de preparar, o sabor pode até variar, mas parecem muito um com o outro, e são fontes de certo prazer compulsivo/proibido. Afinal, você sabe que miojo é frito, é tosco, mas hummmm…
Momofuku tem o mesmo apelo, de certa forma. É Costello passando por tudo que já fez, clonando por vezes suas próprias referências (Flutter & Wow, um soul ao estilo anos 60, poderia ter saído num Kojak Variety ou no Get Happy!). Mas a vantagem aqui é a sensação de improviso, de pegada de primeira que Costello e seus impressionantes Imposters imprimem. Pegue a faixa de abertura, No Hiding Places, por exemplo, e veja se não é uma daquelas faixas que poderiam ter aberto Blood & Chocolate – um dos álbuns mais urgentes de Elvis. Até a bílis do homem, que parecia ter sumido após o casamento com Diana Krall, reaparece – veja a letra no link. A presença de Jenny Lewis e de David Hidalgo nos créditos acaba, por sua vez, temperando de ‘americana’ o restante do álbum e dando sua unicidade em relação a outros trabalhos de Costello.
E é neste ambiente que Elvis se dá melhor: quando pode improvisar, descer o braço na guitarra e não ficar cheio de dedos ou tentando emular Gershwin. Sim, ele entende muito de música e pode, sim, chegar perto do erudito, mas enquanto lá ele apenas fica parecendo um sub-jazzista, em Momofuku ele mostra porque é ainda hoje um dos melhores roqueiros que já andou por este planeta. E é aqui que o roqueiro Costello se diferencia do jazzista Costello: no jazz, ele não consegue ser nada além de um esforçado jazzista. Nos trabalhos pop, Elvis consegue permear todas suas influências (inclusive o jazz) e colocar tudo de uma forma inédita e, sim, pessoal. Ele é único como artista pop, mas nada demais como jazzista.
Ah, é fato que Momofuku não é um álbum superior a When I Was Cruel ou The Delivery Man, álbuns mais ambiciosos, mas é certamente melhor do que o somente simpático The River in Reverse. Na barra ao lado, dêem uma olhada no meu Muxtape que tem algumas faixas do Momofuku para ouvirem.
TARATATA N°254 (France 4 – Dif. le 15/02/08)
Badfinger paraguaio
Jun 20
Pensava que a era dos Creedence Clearwater Revisited tivesse acabado. Mas não. Dia destes, segundo a Folha de S. Paulo, teremos uma espécie de Milli Vanilli do grande Badfinger, a melhor banda da Apple fora os Beatles, se apresentando num bizarro festival de rock. Badfinger sem Peter Ham (que se matou em 1975) é como Big Star sem Alex Chilton ou The Fall sem Mark E. Smith. Mas pior ainda é que o Badfinger Milli Vanilli que vem não tem praticamente nada do original, já que Tom Evans, que era o segundo mais importante da banda, se enforcou em 1983. É como o Beach Boys do Mike Love. Ou o Byrds licensiado do Gene Parsons. Faça um favor e não apareça. Ninguém merece. Nem mesmo os paraguaios.
Veja o Badfinger verdadeiro aqui, mandando bem no Top of The Pops.
E aqui, com um tema que fez um mega sucesso no Brasil (dedicado para papai e mamãe…):
O álbum de estréia do Sons And Daughters é uma daquelas descobertas tardias que sempre gosto de ter. Acho que a busca pelo último som é sempre válida, mas nada como o tempo para dar uma limada no que presta e o que não presta. O fato é que esse álbum super curto é mais uma razão para se indagar o que há, de fato, na água de Glasgow.
Levando em conta a safra enorme de bandas guitarreiras que assola o mercado, 90% delas puramente estéticas com conteúdo de gosto duvidoso, é reconfortante ouvir uma banda que, por mais que algumas influências se sobressaiam (e no caso deles passa desde Eleventh Dream Day a Nancy Sinatra), não ficam limitadas a isso.
Minha citação sobre Nancy Sinatra é pelo fato da sonoridade do S&D passar por uma clara tensão entre o som da banda (instigante como Lee Hazelwood) e a força da vocalista Adele Bethel, que por vezes lembra a igualmente ótima Rachel Nagy (Detroit Cobras), que pode também servir de referência.
Mas o que me motivou a começar o blog com eles foi o fato de que, ao ouvir o álbum no meu carro, imediatamente me acordou aquela vontade de pegar uma balada sozinho pra pular e dançar um bom e velho rock’n’roll. Essa eletricidade estava ficando meio morta ultimamente, sei lá se por força da idade (haha) ou pelos caminhos que minha vida tomou. Enfim, fiquei com a coceira e se há algo bacana que um álbum pode te fazer é te tirar do lugar.