Quando se tem Wedding Present e Steve Albini juntos num mesmo álbum, algo mágico sempre acontece. Na primeira vez, deu no EP 3 Songs, que tem umas das melhores canções da década de 90, Crawl. Depois, ele se juntaram novamente para o monumental Seamonsters, um daqueles dez álbuns para se levar a uma ilha deserta e tal.
Eis que 17 anos depois, com 3 álbuns, um Cinerama, e um retorno e mudança para os Estados Unidos, surge El Rey, o novo trabalho de David Gedge e quem quer que esteja junto (não é só a voz de Gedge que me lembra do Fall), com Steve Albini novamente nos botões e engenharia. Seamonsters Volume 2?
Não exatamente. Gedge não é um músico tradicional: sua banda, apesar de ser originalmente de Leeds, nunca soou exatamente britânica. Nenhum álbum do Wedding Present lembra o anterior: há sempre mudanças sensíveis, seja de tom, tema, peso, velocidade etc. E é fato que, desde que fez o projeto Cinerama, seu som ficou muito menos abrasivo e nervoso.
Este é um dos lados do álbum. Mas Gedge sempre fez letras dúbias e provocativas sobre as relações humanas (como nosso amigo Elvis Costello, e muito antes do Belle & Sebastian). E a inspiração deste álbum é a Califórnia, mas visto por personagens levados ao lado excessivo do sol local. Albini entra exatamente perfeitamente, dando o contraste do tom mais seco, sinistro e direto a um som aparentemente ensolarado. É esta mistura que coloca El Rey já entre os melhores álbuns do Wedding Present.
Não, não é tão bom quanto Seamonsters (falta a finesse com peso de Simon Smith, o melhor baterista de sua geração, por exemplo), mas é mais um daqueles álbuns que estão fora do radar simplesmente por não ser parte da “nova onda” do momento. O que importa é que você, que leu aqui, já sabe. Coloquei duas faixas no meu muxtape para diversão de todos.