Elvis Costello tinha prometido não gravar mais CDs por conta da falência do modelo atual na indústria. Óbvio que ele em menos de seis meses descumpriu a patacoada e gravou, em dois lances de sessões, o ótimo Momofuku, cujo título é atribuído ao criador do lámen. Para não dizer que ele mentiu completamente sobre não lançar mais CDs, ele lançou primeiro em vinil (e sim, o geek que vos escreve comprou).E qual a analogia com o miojo? Bem, ambos são rápidos de preparar, o sabor pode até variar, mas parecem muito um com o outro, e são fontes de certo prazer compulsivo/proibido. Afinal, você sabe que miojo é frito, é tosco, mas hummmm…
Momofuku tem o mesmo apelo, de certa forma. É Costello passando por tudo que já fez, clonando por vezes suas próprias referências (Flutter & Wow, um soul ao estilo anos 60, poderia ter saído num Kojak Variety ou no Get Happy!). Mas a vantagem aqui é a sensação de improviso, de pegada de primeira que Costello e seus impressionantes Imposters imprimem. Pegue a faixa de abertura, No Hiding Places, por exemplo, e veja se não é uma daquelas faixas que poderiam ter aberto Blood & Chocolate – um dos álbuns mais urgentes de Elvis. Até a bílis do homem, que parecia ter sumido após o casamento com Diana Krall, reaparece – veja a letra no link. A presença de Jenny Lewis e de David Hidalgo nos créditos acaba, por sua vez, temperando de ‘americana’ o restante do álbum e dando sua unicidade em relação a outros trabalhos de Costello.
E é neste ambiente que Elvis se dá melhor: quando pode improvisar, descer o braço na guitarra e não ficar cheio de dedos ou tentando emular Gershwin. Sim, ele entende muito de música e pode, sim, chegar perto do erudito, mas enquanto lá ele apenas fica parecendo um sub-jazzista, em Momofuku ele mostra porque é ainda hoje um dos melhores roqueiros que já andou por este planeta. E é aqui que o roqueiro Costello se diferencia do jazzista Costello: no jazz, ele não consegue ser nada além de um esforçado jazzista. Nos trabalhos pop, Elvis consegue permear todas suas influências (inclusive o jazz) e colocar tudo de uma forma inédita e, sim, pessoal. Ele é único como artista pop, mas nada demais como jazzista.
Ah, é fato que Momofuku não é um álbum superior a When I Was Cruel ou The Delivery Man, álbuns mais ambiciosos, mas é certamente melhor do que o somente simpático The River in Reverse. Na barra ao lado, dêem uma olhada no meu Muxtape que tem algumas faixas do Momofuku para ouvirem.